V.I.T.R.I.O.L. não é exatamente uma palavra.
Trata-se de um grupo de palavras formando uma frase
de origem latina, com significado de grande
profundidade e muito peculiar. Cada uma das letras
corresponde à inicial de uma palavra e o conjunto
delas forma a sigla: VITRIOL.
SIGLA, segundo está definido em alguns bons
dicionários e enciclopédias, é uma espécie de
abreviatura formada de iniciais ou primeiras sílabas
das palavras de uma expressão que representa nome de
instituição, entidade comercial, industrial,
administrativa ou esportiva, como: ONU por
Organização das Nações Unidas; BNDES por Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social; CBD
por Confederação Brasileira de Desportos; PTB por
Partido Trabalhista Brasileiro; DETRAN por
Departamento de Trânsito. Pode designar também a
letra inicial usada como abreviatura em manuscritos,
medalhas e monumentos antigos; ou ainda como sinal
cabalístico, rubrica, marca, sinal representativo de
corporação, firma, profissão, etc.
VITRIOL é, portanto, a sigla composta das iniciais
das palavras do Latim, que integram a frase: “Visita
Interiora Terrae Rectificandoque Invenies Occultum
Lapidem”, ou seja, “Visite o Interior da Terra e
Retifique Integralmente a Oculta Lápide”. Existe
toda uma complexa explanação alquímica, para
explicar o que venha a ser “Oculta Lápide” ou “Pedra
Oculta”, também conhecida como “Pedra Filosofal” ou
“Pedra do Sábio”. Nós Maçons, poderíamos chamá-la de
“Pedra Cúbica”, ou talvez, até de “Pedra Polida”.
Na verdade esta viagem ao interior da Terra está
também revestida de profundo simbolismo. Ninguém
poderia imaginar uma viagem penetrando
perpendicularmente rumo ao centro da Terra, onde
existe lava incandescente a temperaturas
altíssimas! – Júlio Verne talvez – O que de fato
está proposto é uma busca introspectiva,
possivelmente lenta, porém, persistente e gradual,
na busca do conhecimento.
No processo ritualístico pelo qual passa o candidato
a Aprendiz Maçom, consta sua permanência na “Câmara
de Reflexões”. Seria ali, num ambiente sombrio,
cercado de um grande número de objetos e símbolos,
com tantos significados distintos, que ele
empreenderia a dita viagem ao interior de si mesmo?
Num momento de extrema tensão, sem saber a razão
pela qual estava naquele lugar, senão por suas
próprias deduções nem sempre muito coerentes, devido
às circunstâncias, sem saber por quanto tempo
permaneceria ali, nem o que estava por vir...
Alheamento – Silêncio:
Embora o nome “Câmara de Reflexões” sugira
introspecção, as condições são bastante adversas e o
tempo insuficiente para aquela viagem proposta e
defendida por Sócrates, “conhece-te a ti mesmo”.
Esta busca, além de muita dedicação e estudo, requer
um estado de espírito absolutamente sereno, isento
de preocupações de qualquer natureza.
A iniciação nos Augustos Mistérios representa tão
somente um marco decisório, a intenção de perseguir
a partir dali, o aperfeiçoamento moral, espiritual e
o compromisso de buscar o conhecimento que lhe fará
uma pessoa melhor a cada dia. A transformação não
acontece num passo de mágica, apenas com a sagração
a Aprendiz Maçom.
A sigla VITRIOL, vem sendo usada até mesmo como
método de formação e treinamento de empreendedores
(VENDEDORES). É o mercantilismo da filosofia onde
ela deveria ser tratada com o maior respeito, pois
se encontra em seu estado mais sublime e puro. Por
ser uma sigla formada a partir de uma expressão em
Latim, e de fundo profundamente filosófico, ela
permite múltiplas interpretações, especulações e
divagações... Sabemos que as traduções nem sempre
representam com fidelidade o pensamento contido no
texto original, pois as palavras têm conotações
próprias para cada idioma. Quando tratamos de coisas
subjetivas, alegóricas ou místicas, aí então fica
bem mais difícil uma tradução linear. Quer nos
parecer que o mais adequado seria uma versão, ainda
que ela não coincidisse com as letras da sigla, mas
que expressasse seu verdadeiro sentido. Algo como:
“Busque no interior de si mesmo o aperfeiçoamento de
seu caráter”.
Se quisermos divagar um pouco sobre o tema VITRIOL
do ponto de vista maçônico, podemos deduzir que a
Câmara de Reflexões é uma caverna, ou o interior da
terra, onde o profano (candidato) passa pelo
processo de renascimento. Da morte material para o
renascer espiritual. O “retificar-se” pode ser
entendido como tornar seu comportamento reto, isento
de desvios, ou seja; abolir os vícios, para ser um
novo indivíduo, com novos padrões de conduta. Assim
será revelada ao novo homem, a pedra bruta que
existe dentro de si e que precisa ser trabalhada.
Não é suficiente ter conhecimento da existência de
tal pedra, se nada for feito no sentido de desbastar
suas arestas, de remover suas imperfeições. É
necessário aprimorá-la na prática de boas ações, no
exercício do amor ao próximo, dedicação familiar,
fraternidade, humildade, tolerância e respeito. Se a
pedra não for trabalhada, de nada vale sabermos que
ela existe.
Na frase latina, a palavra terrae tem uma conotação
bastante distinta do que sugere o significante:
Terra, que designa um planeta do sistema solar. Esta
mesma palavra pode tomar um sentido conotativo
bastante diferente, sendo entendida simbolicamente
como útero materno; local onde somos gerados. (Cabe
aqui uma breve explanação sobre significante e
significado. A palavra tomada isoladamente ou num
determinado contexto; sentido denotativo ou
conotativo – Exemplo: papagaio = ave da família das
psitaciformes; pessoa tagarela, repetitiva;
pandorga, pipa; nota promissória; bilhete;
exclamação.) O retorno ao útero (visita)
significando a possibilidade de um renascimento.
Renascer uma pessoa melhor, de caráter reto (retificandoque),
despido das imperfeições e dos vícios que carregava.
Como? – Encontrando (invenies) a pedra oculta (occultum
lapidem) e trabalhando-a para torná-la justa e
perfeita. Estando ciente de que a tal pedra existe e
que ela se encontra no interior (interiora) de cada
um de nós, está dado o primeiro passo. Depois será a
busca do conhecimento.
Quem quer que se empenhe na dura obra do seu
aperfeiçoamento espiritual deve penetrar no âmago do
seu ser, com o propósito sincero de encontrar e
eliminar todas as imperfeições por ventura
encontradas. E elas certamente não serão poucas.
Este caminho a percorrer haverá de levá-lo à
descoberta da Pedra Filosofal ou Pedra Polida; que é
o princípio, a Centelha Divina que repousa viva
dentro de cada um de nós.
Quando nascemos, trazemos algumas características
genéticas que podem nos predispor a desenvolvermos
certas doenças ou aptidões intelectuais. Entretanto,
nosso caráter é uma folha de papel em branco, na
qual irá aos poucos sendo impresso tudo aquilo que
nos for transmitido. O bem ou o mal não existem em
si mesmos, intrinsecamente. Eles serão desenvolvidos
de conformidade com o meio, com os hábitos
desenvolvidos, práticas ou costumes, através da
educação recebida no lar e da educação formal. Só
mais tarde adquirimos um nível de consciência capaz
de discernir ou escolher entre o que seria o bem ou
o mal, de conformidade com o que tenha sido impresso
na folha de papel de que falamos. A tendência
natural é preponderar o que tenha maior peso em
nosso aprendizado. Nossos valores podem ser
modificados mesmo na fase adulta, mas o processo é
bem mais complexo e demorado.
Nesses tempos modernos em que vivemos, quando se
valoriza sobremodo os bens materiais, superestimando
o ter em detrimento do ser, e somos invadidos todo
tempo por uma avalanche de informações, quando os
falsos alquimistas nos vendem suas fórmulas mágicas
para o enriquecimento, enquanto a ganância de povos
e nações promove guerras e agressões à natureza
colocando em risco a existência da humanidade,
parece não haver tempo para reflexões. Tudo é
urgente. O aqui e agora não nos permite sequer
educar convenientemente nossos filhos. A tecnologia,
a Internet, os vídeo-games estão a substituir a
educação paterna indo aos poucos minando até mesmo
culturas milenares como a dos asiáticos. Parece que
nos resta gritar por socorro ao espírito de Sócrates
que nos ajude na tentativa desesperada de
conhecermo-nos a nós mesmos! Logrando tal intento, é
nosso dever como Maçons, sermos o sal da terra. Isto
é, transmitir esse conhecimento a outras pessoas.
Assim estaremos contribuindo para um mundo melhor;
mais humano, menos violento, possivelmente mais
fraterno, com menos corrupção, mais justo e
perfeito.
Portanto, meus irmãos, a prática de uma VITRIOL faz
bem, é necessária e não tem contra-indicação...
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RUI GONÇALVES DOCA
Membro da Loja Maçônica
Liberdade e União
1158
Goiânia - GO
